asseando nestes dias por Lisboa, damos conta de que árvores e passarada parecem ter acordado de um sonolento inverno, enchendo subitamente as copas de sons e de mil folhas tenras e cintilantes. Até finais de junho, todo este arvoredo irá explodir em manchas de cor e sombras, oferecendo aos lisboetas e aos visitantes um teto que nos enche de alegria e espanto.

No dia 20 de março, exatamente às 15h33, aconteceu o primeiro equinócio do ano. É um momento fugaz em que nenhum dos polos está inclinado em relação ao Sol, que, ao incidir uniformemente sobre a linha do Equador, permite que os dois hemisférios recebam a mesma quantidade de radiação. Este fenómeno astronómico, cuja etimologia do latim significa “noites iguais”, é o único dia do nosso calendário em que dia e noite têm a mesma duração. Esse é também o instante que marca a chegada do outono ao Hemisfério Sul e o prenúncio da primavera no Hemisfério Norte. Tudo isto vem a propósito das árvores. São elas que nos orientam o ponteiro das estações.

Informa-nos o guia ilustrado “25 Árvores de Lisboa”, reeditado pela CML em 2019, que no espaço público da cidade existem mais de 600 mil árvores de diferentes tamanhos, cores e formatos, pertencentes a cerca de 200 espécies. Algumas são autóctones, como os carvalhos, os pinheiros, os sobreiros ou os freixos. Mas a maioria chegou de outros continentes, adaptando-se ao solo e ao clima, oferecendo-nos uma enorme diversidade de flora e um traço de exotismo que torna esta cidade tão particular.

A memória da cidade também está inscrita nas árvores. Protagonistas vivas e silenciosas de muitos acontecimentos históricos e das transformações nesta urbe antiga e atlântica. Tipuanas, plátanos, jacarandás, tílias, araucárias, palmeiras, Ficus, dragoeiros... e tantas outras espalhadas por Lisboa, que nos habituámos a ver. Foi tentando conhecer a sua história que traçámos um percurso por entre colinas, do Largo de Santos à Baixa Pombalina, e que ficámos de cabeça no ar a olhar o céu.

TIPUANAS E VIAGENS FILOSÓFICAS

No início de uma manhã luminosa, encontrámo-nos no Jardim de Santos com Ana Luísa Soares, arquiteta paisagista e diretora do Jardim Botânico da Ajuda, e Luís Mendonça de Carvalho, biólogo. São eles os nossos cicerones neste passeio. Viemos à procura das oito tipuanas que aqui vivem e perante a visão destas assombrosas árvores, que têm mais de 140 anos e cerca de 24 metros de altura, somos por breves momentos transportados para o outro hemisfério, para as margens do rio Tipuani, na Bolívia, onde nasceram e receberam o nome de Tipuana tipu. No Brasil são conhecidas como amendoim-acácia e foi daí que vieram no século XVIII, para ornamentar os jardins da capital do império, onde ainda existem cerca de 1900 exemplares, alguns deles classificados de interesse público.

Dragoeiro, no terraço do hotel One Palácio da Anunciada
Dragoeiro, no terraço do hotel One Palácio da Anunciada Expresso

Olhando-as com atenção, assim como para tantas outras árvores que nos irão pasmar ao longo do dia, o que imediatamente impressiona é o porte e a forma como os troncos sustêm o peso das copas, ainda cobertos de abundantes folhas verdes. No início de junho, as copas das tipuanas irão encher-se de cachos de flores amarelas, cobrindo o chão do jardim como um manto de ouro. “Toda esta exuberância surge de uma função ecológica, pois uma planta não investe no que não lhe é útil”, diz-nos Luís, o nosso biólogo. “As plantas crescem rumo à luz e estão sempre em competição umas com as outras. Quanto maior for o porte, mais elas vingam, projetando a sua sombra sobre as outras, para receber a luz direta do Sol. Têm outro dilema grande, precisam de muita água e, como não podem ir buscá-la, têm de a procurar no solo. Uma das formas de a procurar é fazendo crescer as raízes ativamente. Todas estas árvores estão fora do seu habitat natural, mas comportam-se da mesma forma como se estivessem no lugar onde evoluíram. Nos trópicos elas crescem em solos pouco profundos, onde há muitas raízes espetaculares. Ao expandirem-se assim afastam qualquer veleidade de uma planta próxima querer competir com ela.”

Paramos em frente a uma bela-sombra (Phytolacca dioica), observando o nodoso tronco, de casca rugosa e espessa, que lhe permite armazenar uma grande quantidade de água. Também ela veio da América do Sul, das pampas da Argentina, no tempo da expansão castelhana. A grande viagem das plantas começou no século XVI, com os Descobrimentos. Os botânicos seguiam nas embarcações dos navegadores que partiam para o “Novo Mundo”, muitos deles eram médicos, e traziam novas espécies exóticas que iam recolhendo. Primeiro chegaram as plantas medicinais e alimentares, transformando e enriquecendo a paisagem agrícola. Mais tarde, no século XVIII, vieram as ornamentais, espetaculares e diferentes de tudo o que se tinha conhecido até então.

Este foi o tempo das grandes novidades e do colecionismo botânico, descrito e catalogado minuciosamente em preciosos livros de desenho guardados nas bibliotecas dos museus de ciências. Este foi também o tempo das “viagens filosóficas”. No final do século XVIII, tiveram início as primeiras missões botânicas de estudo da flora das então províncias ultramarinas portuguesas, para que se pudesse acrescentar conhecimento vegetal ao mundo científico. O intuito de criar herbários e de trazer plantas vivas para serem estudadas e desenvolvidas em estufas — reproduzindo um sistema natural adaptado a um novo clima, para depois serem plantadas em jardins privados e no espaço citadino — foi a génese dos jardins botânicos europeus.

A memória da cidade está inscrita nas árvores. Protagonistas vivas e silenciosas de muitos acontecimentos históricos e das transformações nesta urbe antiga e atlântica



Em Portugal, o primeiro a ser criado foi o Jardim Botânico da Ajuda, dirigido por Domenico Vandelli, médico naturalista de Pádua, convidado pelo Marquês de Pombal para vir lecionar na Universidade de Coimbra. Em 1787 mudou-se para Lisboa e foi sob a sua orientação que se iniciou uma primeira grande coleção de plantas exóticas, cujo estudo e catalogação ainda nos dá pistas sobre as espécies que aqui se desenvolveram. Para levar a cabo este projeto, Vandelli redigiu um tratado intitulado “Viagens filosóficas ou dissertação sobre as importantes regras que um filósofo naturalista nas suas peregrinações deve principalmente observar”, onde defendia que o saber científico tem de andar a par com o saber prático. Conseguiu convencer a coroa portuguesa a realizar grandes expedições aos territórios coloniais, para que no império se criasse um centro privilegiado de conhecimento científico e comercial sobre o “mundo natural” e os recursos que dele poderíamos extrair.

Este projeto foi levado a cabo por alunos formados por Vandelli, chamados “riscadores científicos”, por terem aulas na Casa do Risco de Gravura do Real Gabinete da Ajuda. Entre eles, inscreveram-se na história nomes como José Joaquim Freire e Joaquim José Codina, desenhadores-riscadores que percorreram durante mais de uma década cerca de 39 mil quilómetros inóspitos no Brasil, divulgando ao mundo a riqueza natural da floresta da Amazónia.

JACARANDÁS, BROTERO E O CHEIRO DAS TÍLIAS

Subindo a Avenida D. Carlos I ao encontro dos jacarandás, deparamo-nos junto ao Chafariz da Esperança com um plátano, de inconfundível casco pintado de manchas brancas e castanhas claras, monumento solitário que cobre de frescura o amplo largo. É um exemplar magnífico. Apetece sentar debaixo das suas folhas no quiosque que serve cafés e bebidas frescas, como faziam os alunos da Arcádia na Grécia Antiga, que tinham as aulas debaixo dos plátanos. Por cá estão espalhados por toda a cidade, pois são árvores de grande sombrea­do e que podem atingir 30 a 40 metros de altura.

Metrosideros, a árvore-do-fogo, no Jardim Alfredo Keil, à Praça da Alegria
Metrosideros, a árvore-do-fogo, no Jardim Alfredo Keil, à Praça da Alegria Expresso

Mas o grande espanto no alinhamento que se segue são os jacarandás, que ladeiam toda a D. Carlos I. Em breve as suas copas irão rebentar em flores lilases que enchem a cidade de manchas exuberantes de cor e os tejadilhos dos carros de flores de seiva pegajosa. Este aspeto incomoda muito os moradores de Lisboa. Mas é preciso ter paciência com os jacarandás. Neste gesto de floração fulgurante, muito breve, transportam um instante do Hemisfério Sul para nos recordar que as plantas também têm memória. “O que é lindo nesta árvore é que está geneticamente baralhada. Isto tem a ver com o facto de quando lá é inverno aqui é verão e muitas vezes continuam a floração fora de época”, informa-nos Ana Luísa Soares.

O azul raro da flor do jacarandá era muito apreciado como novidade exótica, e consta que a espécie chegou do Brasil no início do século XIX, ainda antes de a Corte ter regressado a Portugal, depois do período de exílio no Rio de Janeiro. O primeiro registo da existência dos jacarandás em Lisboa foi anotado por Félix Avelar Brotero, o sucessor de Vangelli na direção do Real Jardim Botânico da Ajuda, e autor da primeira flora portuguesa contemporânea. Conta-se que os jacarandás se adaptaram tão bem ao clima e ao solo que Brotero oferecia as sementes a quem as quisesse cultivar, para que assim se fosse ornamentando a cidade.

O CHEIRO DAS TÍLIAS E AS MÉLIAS CONTEIRAS

No fim da Avenida D. Carlos I, na esquina com a Rua das Francesinhas, não resistimos a espreitar as tílias, que cobrem toda a rua como um teto de folhas verde-prata. As tílias vieram do Norte da Europa, onde debaixo das suas copas se faziam os julgamentos das aldeias e da sua madeira era extraída a estatuária das igrejas. Mas o poder da tília advém das suas capacidades medicinais extraídas das flores usadas em efusões e banhos calmantes para curar distúrbios nervosos, enxaquecas e insónias. Nesta altura ano, deixam no ar um aroma perfumado e tranquilizador, que antecipa o verão.

Plátano, no Chafariz da Esperança, na freguesia da Estrela
Plátano, no Chafariz da Esperança, na freguesia da Estrela Expresso

Subimos até à Avenida Pedro Álvares Cabral, de ruído e trânsito infernal, mas que merece atenção, agora que as mélias estão todas em flor. As mélias, originárias da China, também chamadas árvore da conteira, têm pequenas bolinhas cor de laranja que se extraem do seu fruto e podem ser perfuradas, transformando-se em colares de contas, que já foram muito usados no fabrico artesanal de rosários. Os frutos e as folhas da mélia são tóxicos, e têm um efeito bastante eficaz no combate a pragas de plantas, pelo que o seu extrato tem sido usado em agricultura bio­lógica. São árvores de pequeno porte, crescimento rápido e vida curta. “Mas são muito úteis para passeios apertados como este”, refere Ana Luísa. “Não fazia sentido plantar aqui árvores de grande porte, com os ramos a entrar pelas janelas das casas, que estariam sempre a ser massacradas com sucessivas podas para evitar a proliferação de fungos”, prossegue, explicando que as árvores plantadas em caldeira nos passeios, para se aguentarem num pedaço mínimo de terra compacta e constantemente a sofrer com os escapes dos automóveis têm de ser grandes guerreiras.

MEMÓRIA DA SEDA E RESISTÊNCIA

Cruzando o arco do Aqueduto das Águas Livres, entramos no Jardim das Amoreiras. Edificado sobre a Mãe d’Água, que serviu de abastecimento à cidade, atualmente convertida em museu, este é um dos mais antigos jardins públicos de Lisboa. Projetado por deliberação do Marquês de Pombal no novo plano da cidade, 16 anos depois do terramoto de 1755, foi nestas imediações que se albergou o primeiro núcleo de unidades fabris de Lisboa e respetivas habitações para os operários e fabricantes na fiação das sedas. A ideia de edificar um espaço público, privilegiado pela presença da água e que servisse de local de lazer para os moradores, tinha o objetivo de aqui se plantar um conjunto extenso de amoreiras brancas, cujas folhas serviam para alimentar os bichos-da-seda que forneciam a matéria-prima para a produção da Real Fábrica da Seda do Rato. Consta que o próprio marquês plantou com as suas mãos um dos 331 pés de amoreira, que logo se transformou na árvore mais corpulenta entre todas.

O jardim, que na realidade se chama Jardim Marcelino Mesquita, ainda conserva na sua toponímia a memória de origem. Mas das amoreiras brancas só resta um exemplar. No interior deste espaço verde de estrutura retangular, com um chafariz de água ao centro e um acolhedor quiosque entre as árvores, podemos encontrar várias outras espécies arbóreas, como tílias, plátanos-bastardos, castanheiros-da-índia, loureiros-da-nova-zelândia, árvores-do-verniz, magnólias-brancas e uma quantidade assinalável de Ginkgo biloba, de tronco ágil e longo e pequenas folhas redondas a brilhar ao sol, que merecem a nossa atenção.

Apesar de apresentarem esta configuração quase frágil, as Ginkgo biloba são árvores milenares e das espécies mais resistentes do planeta. Originárias do Japão, onde embelezavam os jardins dos templos com as suas folhas douradas, foram descobertas pelo médico e estudioso alemão Engelbert Kaempfer, grande viajante do final do século XVII. Andou pela Rússia e pela Pérsia (atual Irão), atracou no Sião (atual Tailândia) e depois na costa de Nagasáqui, na época o único porto do Japão aberto aos estrangeiros. Foi o primeiro cientista ocidental a trazer para a Europa as sementes desta árvore que toda a comunidade científica julgava extinta. A resistência jurássica desta árvore ficou definitivamente provada em 1945, depois da bomba atómica ter explodido sobre Hiroxima, dizimando tudo em seu redor. Foi ela, a Ginkgo biloba, o primeiro organismo vivo a vingar sobre a terra estéril e queimada pela radiação. Testemunho de beleza e força para demonstrar aos homens que o planeta a todos pertence.

VISÕES TROPICAIS E FIGUEIRAS-ESTRANGULADORAS

Seguindo um invisível percurso de água que corre entre a Mãe d’Água do Jardim das Amoreiras e o Reservatório de Água da Patriarcal, situado no centro do Jardim do Príncipe Real, atravessamos a Rua da Escola Politécnica em direção à Praça do Príncipe Real. No trajeto somos surpreendidos pela visão extraordinária das silhuetas das palmeiras Washingtonias, que dominam a alameda norte do Jardim Botânico de Lisboa. A idade destas palmeiras pode-se contar pelo número de anéis marcado no seu tronco longo e flexível, capaz de aguentar tempestades violentas. As primeiras palmeiras que chegaram à Europa foram trazidas pelos espanhóis no século XVII. Vieram do México e do sul da Califórnia, mas ao olharmos para elas é das paisagens africanas que nos lembramos. “Entre todas as árvores, as palmeiras são as que mais transportam uma imagem de exotismo tropical. Foi precisamente com este propósito que no século XIX, numa altura de expansão africana, os jardins da cidade se encheram de exemplares de várias espécies”, refere Luís Mendonça.

Antes de nos despedirmos das Washingtonias, ficamos a saber que a mais importante coleção herbária está guardada no Museu de História Natural e Ciência e pertenceu a Friedrich Welwitsch. O botânico austríaco que ficou conhecido para a história por ter descoberto no deserto do Namibe, em 1859, uma planta tão estranha e diferente de todas as espécies que se conhecem e que consegue desenvolver-se num dos sítios mais áridos do mundo, onde a pluviosidade não excede os dez mililitros por ano e a temperatura pode variar entre os 10 e os 60 graus. Foi batizada com o nome Welwitschia mirabilis (que significa milagre) em honra do botânico que a classificou.

Paramos em frente a uma bela-sombra (Phytolacca dioica), observando onodoso tronco, de casca rugosa eespessa, que lhe permite armazenaruma grande quantidade de água



Welwitsch viveu em Portugal entre 1839 e 1853 e, subsidiado pela coroa portuguesa, realizou várias expedições em Angola, de onde recolheu cerca de oito mil amostras de plantas, mil das quais eram novas. Acabou por interromper a expedição por ter contraído escorbuto, e regressou a Londres, onde se instalou perto dos jardins botânicos reais, para poder ficar perto das suas plantas. A coleção de Welwitsch era tão preciosa que depois da sua morte, em 1872, a coroa portuguesa teve de travar uma longa batalha judicial com a coroa britânica para a conseguir trazer para Portugal. Só ao fim de alguns anos conseguiu receber o lote de duplicatas que hoje fazem parte do património dos museus de História Natural de Lisboa e de Londres.

Pela hora de almoço, o Esplanada Café no Jardim do Príncipe Real enche-se de gente e também nós somos tentados a sentar-nos numa das mesas perto das três imponentes figueiras-da-austrália que encerram circularmente toda a entrada norte do jardim, oferecendo a sua sombra como num enorme salão ao ar livre. Observamos as bases das raízes espetaculares, que servem de abrigo a um bando de crianças que brincam como se estivessem numa floresta encantada. Também conhecidas como figueiras-estranguladoras (Ficus macrophylla) ou árvore-da-borracha, podem atingir 60 metros de altura, informa-nos o livro “Árvores na Cidade — Roteiro das Árvores Classificadas de Lisboa”, da autoria de Graça Amaral Neto Saraiva e Ana Ferreira de Almeida. “Este nome deve-se ao facto de uma destas Ficus começar o seu desenvolvimento a partir da germinação de uma semente deixada na copa de uma árvore. A planta começa a crescer como epífita e as suas raízes, ao chegar ao solo, transformam-se em troncos que podem ‘sufocar’ a árvore hospedeira, causando-lhe a morte.” Em Lisboa existem vários exemplares espalhados pela cidade. São árvores centenárias que assistiram a revoluções e mudanças como a troca de nomes deste jardim, que embora continue a ser conhecido com o topónimo da sua fundação, em homenagem a D. Pedro V, no advento da revolução republicana mudou o nome para Jardim França Borges, em homenagem ao jornalista fundador de “O Mundo”.

Mas o personagem central deste jardim romântico é o cedro-do-buçaco, ou Cupressus lusitanica, que tem mais de 150 anos e é a mais antiga árvore classificada em Portugal. Toda a parte superior está assente num caramanchão de ferro, que suporta e conduz escultoricamente o crescimento dos troncos, sustentando a copa central, que se estende num impressionante maciço verde com mais de 25 metros de diâmetro. Informam ainda as autoras de “Árvores na Cidade”, “este prodígio arbóreo não é resultado da natureza, mas sim da condução de várias gerações de jardineiros, através de podas cirúrgicas”. Sobre este monumento nacional, há ainda a acrescentar que nem é um cedro, nem veio do Buçaco. “Na verdade, é um cipreste e veio do México. “Daí também lhe chamarem a árvore mentirosa”, revela Luís Mendonça de Carvalho.

O equívoco tem uma razão de ser. A primeira vez que se viu um exemplar do Cupressus lusitanica, foi na mata do Buçaco. Quem o descreveu foi o naturalista escocês Philip Miller, em 1768, quando lá esteve a visitar a extraordinária mata, onde se instalou a Ordem dos monges Carmelitas. Foram eles que arborizaram toda esta região, então desértica. Trouxeram-nos das regiões montanhosas do México e da Guatemala e o primeiro exemplar foi plantado em 1644. Resistiu mais de 300 anos, até ter sucumbido, em 2013, a uma violenta tempestade.

A ÁRVORE DOS MARES DO SUL

No Jardim de São Pedro de Alcântara, entre buzinadelas de condutores impacientes, ouve-se o som dos acordes de uma guitarra portuguesa enquanto casalinhos de turistas fotografam-se em selfies panorâmicas, entre colinas com o Tejo ao fundo. Abeiramo-nos do miradouro. Fixamos do outro lado a colina mais alta de Lisboa, procurando o maciço verde de pinheiros mansos que nos orientam como um mapa e identificam os lugares que enquadram. O Castelo de São Jorge, o Convento da Graça, um pouco mais à esquerda, Nossa Senhora do Monte. Iguais a si mesmos durante as quatro estações do ano, os pinheiros mansos, a árvore mediterrânica por excelência, transmitem uma sensação de conforto, talvez por carregarem consigo uma memória longínqua de pertença a um território identitário da Europa do Sul.

“Não estão lá por acaso”, revela Ana Luísa. “Os primeiros foram plantados em redor do Castelo de São Jorge por volta dos anos 40, numa das primeiras intervenções de Gonçalo Ribeiro Telles. Foi um dos primeiros projetos paisagistas que se fizeram em Portugal, contra todos os modelos de jardins instalados em Lisboa até ao Estado Novo.” A intenção do paisagista fora fazer uma composição subtil para não desvirtuar o desenho do Castelo, mas que, simultaneamente, se pudesse avistar de vários pontos altos de Lisboa, traçando assim um eixo verde visual entre São Pedro de Alcântara e o Parque Eduardo VII.

Ribeiro Telles, nome incontornável na história da cidade da segunda metade do século XX, escreveu, em 1960, em coautoria com Francisco Caldeira Cabral, o grande livro de referência sobre as árvores, precisamente intitulado “A Árvore em Portugal”, inaugurando uma nova maneira de as olharmos e compreender a sua importância nas nossas vidas.

Antes de atravessarmos a Avenida da Liberdade em direção ao Largo da Anunciada, fazemos uma pausa no Jardim Alfredo Keil, que fica na Praça da Alegria. Queremos ver se os Metrosideros já se cobriram de flores rubras. Têm cerca de 127 anos, medem 19 metros de altura, apresentam um tronco poderoso e uma copa com um diâmetro de 23 metros. Também conhecidos como árvore-do-fogo, os Metrosideros são espécies costeiras, habituadas ao fustigo das marés e dos ventos fortes das ilhas do Pacífico, onde existem mais de 50 espécies. Chegaram à Europa em meados do século XVIII, referenciadas pelo inglês Joseph Banks, diretor do jardim botânico de Kews, que acompanhou James Cook, o explorador e cartógrafo ao serviço da Coroa de Inglaterra, nas suas viagens para mapear a Terra Nova.

Na cultura mahori, o Metrosideros era considerada uma árvore sagrada. Quando morria alguém, o espírito do defunto viajava até ao exemplar mais antigo do planeta — dizem ter mais de 800 anos e encontra-se em Cabo Reinga — para se banhar na sua raiz antes de se juntar aos antepassados. Cabo Reinga fica no extremo norte da ilha mais a norte das ilhas da Nova Zelândia. Olhando ao fim da tarde para os Metrosideros do Jardim Alfredo Keil, rodeados por um complexo sistema de raízes aéreas, suspensas como uma sofisticada cortina tecida em matéria orgânica, não podemos deixar de pensar que também Joseph Banks terá ficado tomado pelo poder dos Metrosideros e das lendas dos mares do Sul.

DRAGOEIROS, GARCIA DE ORTA E UM CHÁ

Também o dragoeiro, ou o sangue-de-dragão, foi adorado desde tempos milenares pelos primeiros habitantes das ilhas da Macaronésia, que seguiam o seu trilho em busca da resina cor-de-sangue, muito utilizada na tinturaria e de grande valor comercial. Nas Canárias, por exemplo, “o sangue de dragão”, era usado para embalsamar os mortos.

Quem já viu um dragoeiro não o esquece. Os raros que por cá existem vieram da Madeira, para ornamentar o Observatório Astronómico de Lisboa, na Tapada da Ajuda. Luís Mendonça de Carvalho tinha-nos dito que no roteiro que escolhêramos seguir poderíamos ter a sorte de ainda encontrar um dragoeiro num jardim abandonado. Foi seguindo esta pista que atravessámos a Avenida da liberdade, rumo à Rua das Portas de Santo Antão.

Cortamos no Largo da Anunciada, onde ainda tem porta aberta a Antiga Ervanária, especializada em plantas medicinais. Foi a primeira ervanária de Portugal, fundada em 1793. Duzentos e trinta anos antes, Garcia de Orta, o brilhante médico renascentista judeu convertido ao cristianismo, que embarcou para a Índia com 23 anos, tinha redigido o livro “Colóquios dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia”, a primeira descrição científica feita por um europeu sobre as características botânicas das plantas medicinais exóticas e as suas propriedades terapêuticas.

Esta obra — escrita em português e não em latim, como era prática nas obras de literatura científica da época — além de incluir a primeira poesia impressa de Luís de Camões, foi dos primeiros tratados europeus que juntava o saber da medicina ao da botânica, e inaugurou uma nova visão quinhentista sobre o mundo natural da Ásia. Garcia de Orta teve de se bater por ela contra todos os médicos portugueses de então, que consideravam o estudo da matéria um tema menor na prática médica. Garcia de Orta morreu em Goa em 1568, onde a sua família foi perseguida pela inquisição. Uma das suas irmãs foi condenada por judaísmo e queimada viva num auto de fé. Também os restos mortais de Garcia de Orta foram retirados da Sé de Goa e, depois de exumados, lançados à fogueira. Mas o tratado não ficou esquecido.

Queremos ver se os Metrosideros já se cobriram de flores rubras. Têm cerca de 127 anos, medem 19 metros de altura, apresentam um tronco poderoso e uma copa com um diâmetro de 23 metros



Pouco tempo antes da sua morte, Charles de l’Écluse, celebrizado como Clusius, famoso naturalista flamengo, fundador da horticultura, iniciara um périplo pela Península Ibérica. Estes dois homens do Renascimento, que muito contribuíram para o estudo da botânica ao serviço da medicina, terão certamente ouvido falar um do outro. Em Lisboa, Clusius obteve a posse de um exemplar da obra de Garcia de Orta e foi ele o responsável pela tradução para latim dos “Colóquios” de Orta, obra divulgada por toda a Europa numa versão corrigida, anotada e enriquecida com gravuras, que rapidamente se transformou num enorme sucesso, com direito a outras cinco edições revistas e ampliadas.

Durante esse período, Clusius esteve no Convento da Graça, onde viu pela primeira vez um dragoeiro. Impressionou-o tanto esta planta de porte arbóreo, tronco curto e largo, de copa densa quase plana, cuja morfologia mais faz lembrar um fóssil vivo, que mandou desenhar uma gravura para ilustrar um dos capítulos da sua obra.

Mal entramos na Rua das Portas de Santo Antão, avistamos, debruçados sobre um muro, o perfil da copa do dragoeiro. Afinal, não é um jardim abandonado, como se lembrava Luís, mas o terraço do hotel One Palácio da Anunciada. Subimos a escadaria de mármore, com os tetos ornamentados de frescos oitocentistas, espreitamos uma breve informação onde se pode ler que neste palácio, edificado antes do terramoto de 1755 pelos condes da Ericeira, existiu uma biblioteca com mais de 18 mil livros e chegou a ter uma pintura de Ticiano e uma estátua de Bernini no jardim.

Dessa memória anterior ao terramoto que destruiu grande parte do palácio, resta apenas o dragoeiro. Aí está ele, singular e estranho, matéria viva desde o tempo dos dinossauros e da Idade do Gelo. Enquanto bebemos um chá de rooibos, certamente colhido numa plantação da África do Sul, recordamos todas estas árvores que conhecemos, restauro perene da memória e do prodígio que é a natureza.

Artigo originalmente publicado a 22 de maio de 2022.