António Jorge Gonçalves, 60 anos de vida e mais de trinta de trabalho, acaba de publicar "O tempo do cão", numa nova colaboração com o escritor angolano Ondjaki, lançou uma coleção literária com mulheres ilustradoras e tem prestes a sair "O caminho de volta", um ensaio desenhado, biográfico.

Na próxima semana, também vai estar na Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, em Itália, onde o livro "Dita Dor" (2024) foi distinguido com o prémio de melhor banda desenhada infantojuvenil.

Em entrevista à agência Lusa, no atelier de trabalho em Lisboa, onde não usa computador e arquiva as dezenas de cadernos de desenhos e esboços -- que já só servem para "curiosidade museológica" -, António Jorge Gonçalves traçou as ligações entre o que feito, em particular sobre a banda desenhada "Dita Dor" e o ensaio "O caminho de volta".

"Inscrevo-me nessa linha em que o desenho pode ser uma escrita. (...) O desenho é a única coisa em que eu realmente posso confiar para escrever sobre o que é indizível para mim", afirmou.

"Dita Dor", que saiu em 2024 na coleção literária "Missão Democracia", da Assembleia da República, é a primeira novela gráfica de António Jorge Gonçalves pensada para os mais novos.

António Jorge Gonçalves tinha nove anos quando aconteceu a revolução de 25 de Abril de 1974 e transpôs para aquele livro as memórias de infância com os pais e os irmãos, "os anos claustrofóbicos" em ditadura, a morte de Salazar, a Guerra Colonial, e as subtilezas do quotidiano e dos costumes dos portugueses.

"Queria falar do que era a ditadura, porque acho que estamos num momento em que até parece que o fascismo é 'cool'. (...) E quis falar sobre o medo, imaginar isso hoje, ter medo de falar, a autocensura", disse.

António Jorge Gonçalves diz que a BD é a sua "linguagem mais matricial", lembra-se de desenhar obsessivamente desde a infância, embora a sua prática artística se tenha estendido à ilustração, ao cartoon, ao design gráfico, ao desenho performativo ao vivo, à edição e ao ensino.

"Acho que sou um generalista. Não sou um especialista. Não consigo dedicar-me só a uma coisa e tornar-me um grande especialista. Gosto de me dedicar com muita intensidade às coisas e levá-las a um ponto em que valeu a pena. No momento em que as coisas estão bem eu aborreço-me, é um tédio", reconheceu.

No atelier, estão metodicamente arrumados os cadernos pretos onde faz aquilo que descreveu como a "coreografia da mão", com desenho a caneta preta, a lápis branco, a aguarela, em exercícios diarísticos, experimentais.

"A palavra, para mim, exige uma reflexão qualquer. Tenho de me pôr a pensar de uma maneira consciente sobre coisas que o desenho não me obriga. No desenho não minto", declarou.

Vem isto a propósito também de "O caminho de volta", o livro que publicará em abril pela Companhia das Letras numa coleção de não-ficção e que subtilmente fala sobre família, tempo e ausência.

Em 2024, a mãe passou a viver num lar por questões de saúde. "No dia em que foi para o lar, dei comigo a fazer isto: Todos os dias desenhava seis quadrados no meu caderno, com imagens do que eu via durante esse dia, sem pessoas".

"O caminho de volta" é uma escolha de muitos desses desenhos, feitos antes ou depois das visitas ao lar, captando detalhes da paisagem urbana, prédios, jardins, uma janela, uma escadaria, ou o interior de uma casa, tudo isto unido por breves textos em letra manuscrita.

"O desenho é a única coisa em que eu realmente posso confiar para escrever sobre o que é indizível para mim", explicou.

Este livro não é um diário. É uma conversa do autor consigo mesmo, a partir daquele acontecimento familiar, da mãe no lar, que atravessa a narrativa como "um rio subterrâneo".

Para António Jorge Gonçalves, o que está desenhado nos cadernos está morto e o que é reproduzido nos livros é o que permanece vivo. "Quando penso em livro, o original é o que é publicado", é o que o leitor vai desfrutar.

É também com este princípio que decidiu criar uma coleção literária, "Oleandras", de narrativas visuais autobiográficas de artists mulheres.

Segundo António Jorge Gonçalves, esta coleção surge "muito influenciada" pelo conceito de "escrevivência", cunhado pela escritora brasileira Conceição Evaristo, e pela experiência de ele ter lido "Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada", de Carolina Maria de Jesus, duas obras que escapam ao cânone literário.

"Comecei a aperceber-me da falta de representatividade das mulheres na arte, apercebi-me de que quase todos os livros que tinha lido eram de homens. Comecei a ler livros de não-ficção de pendor autobiográfico de autoras, comecei a perceber que não tinha lido aqueles temas. Havia certos temas que achava que, por obra divina, eram do cânone e universais, mas eram masculinos", admitiu.

Os dois primeiros volumes da coleção "Oleandras", em edição de autor pela Noturno Azul, são "vai, mas volta", de Liliana Lourenço, e "amanhã", de Ana Biscaia, estando em preparação um volume de Paula Delacave e outro de Rachel Caiano.

*** Sílvia Borges da Silva (texto) e António Cotrim (fotos), da agência Lusa ***

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