Se a ideia do Sporting era garantir boa vantagem nesta primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal e, ao mesmo tempo, não desgastar demasiado os seus principais jogadores a pensar no jogo de segunda-feira com o SC Braga, o objetivo foi conseguido. Talvez os leões se tenham colocado a jeito, nos últimos dez minutinhos, de sofrer um golo que deixaria a eliminatória levemente mais aberta, mas, como o Rio Ave não marcou, ficaram os dedos e os anéis. E bem poderia ter havido mais alguns anéis, pois o Sporting falhou muitos golos na segunda metade.

O jogo começou em ritmo muito lento. Como se em Alvalade estivessem 35 ou 40 graus. Não estavam. A opção pela lentidão era mesmo dos jogadores de ambas as equipas. Talvez o Sporting, por jogar em casa e ser bem mais forte do que o Rio Ave, pudesse ter apostado em mais velocidade.

O Rio Ave, mesmo assim, jogava muito compacto, num 4x4x2 muito juntinho, tentando que não houvesse espaço perto da área de Miszta. O primeiro sinal de perigo, se assim podemos escrever, surgiu num remate de longe de Debast, com a bola a sair, lentinha como o jogo, relativamente perto do poste esquerdo da baliza dos vilacondenses.

O jogo estava naquele ramerrame bem sonolento quando Trincão, ao minuto 12, foi ao lado direito do ataque leonino marcar um pontapé de canto. A bola saiu-lhe do pé esquerdo bem redondinha, esvoaçando suavemente até encontrar a cabeça de Clayton, que a cortou para a entrada da área, onde apareceu Catamo a mandar estoiro para o fundo da baliza do Rio Ave: 1-0.

Poderia ter sido uma espécie de estalada em jogo tão indolente. Assim não foi. O ramerrame continuou e só houve algo de interessante quase um quarto de hora mais tarde, quando André Luiz, de fora da área, tentou o que só Debast e Catamo haviam tentado: rematar. Rematou forte e (quase) colocado, pois a bola passou perto do poste direito da baliza de Rui Silva.

Se havia alguém que poderia impedir que o cinzentismo do jogo se arrastasse até ao intervalo, esse alguém era Gyokeres, Viktor para os treinadores. E foi ele quem, primeiro num arranque pela esquerda e depois recebendo passe de Trincão após falha de Richards, agitou as bancadas. João Tomé impediu que o primeiro remate acabasse em golo, Miszta fez o mesmo no segundo.

E a fechar o primeiro tempo, apareceram os homens que mais tinham dado nas vistas até então: Catamo e Gyokeres. O árbitro assinalou grande penalidade de Aguilera sobre o moçambicano e o sueco, inesperadamente à Panenka, fez o 2-0.

A segunda parte começou diferente. A bola, bombeada por Quaresma, foi ter ao pé de Gyokeres, o sueco cedeu-a a Trincão que fez passe longo para Maxi Araújo. Cruzamento rasteiro do uruguaio, Gyokeres amorteceu para Trincão rematar muito por cima, perto da marca de penálti. Muito boa jogada com muito má finalização.

Aos 56’, Gyokeres fez o que tantas vezes faz. Os adversários bem sabem o que ele vai fazer (como os adversários de Garrincha sabiam nos anos 50 e 60), mas não conseguem evitar o perigo. O sueco arrancou pela esquerda, fez com que João Tomé caísse sem ninguém lhe tocar, cedeu a bola a Catamo, o qual, tal como Trincão minutos antes, a enviou muito por cima da baliza de Miszta.

O ‘show’ do velho Viktor estava para continuar. Segundos depois da hora de jogo, o sueco recebeu a bola de Trincão, desta vez sobre a direita, já depois de Hjulmand a ter recuperado. Correu 10 ou 15 metros, evitou Panzo e rematou. A bola saiu do pé direito de Gyokeres com tremenda força e, quando embateu na junção entre poste esquerdo e barra, o estrondo foi enorme.

O desnível entre o rendimento das duas equipas era tão grande que Rui Borges, aos 63 minutos, decidiu mexer. Talvez já a pensar no jogo de segunda-feira com o SC Braga, importantíssimo na luta pelo título. Saíram St. Juste, Fresneda e Hjulmand, entraram Matheus Reis, Quenda e Eduardo Felicíssimo. Dava descanso ao espanhol e ao dinamarquês e dava ritmo ao brasileiro e ao ala português.

Seria tempo para o Sporting descansar um pouco em cima dos dois golos de vantagem e começar a pensar em Hornicek, Robson Bambu, João Moutinho, Ricardo Horta e Carlos Carvalhal? Assim foi e, depois de golo anulado a Catamo por fora de jogo, Rui Borges trocou Trincão por Harder. Descanso para o português, ritmo para o dinamarquês.

Pouco depois, Harder (talvez Conrad para os treinadores) fuzilou a baliza de Miszta. Ou antes: fuzilou a barreira atrás da baliza de Miszta. Logo a seguir, foi a vez de Maxi Araújo falhar o 3-0. E até deu para, aos 88’, Biel entrar em campo para tentar mostrar o que até agora não mostrou. Impossível, até ao fim, continuou Gyokeres. E já não apenas na questão física, também a demonstrar atributos técnicos que muitos julgavam impossíveis de ter. Se duvidam, rebobinem o jogo e vejam os 90 minutos.