
Manuel Cajuda é um dos treinadores com mais jogos na Liga. 41 anos após o primeiro jogo, o antigo treinador e atual presidente do Olhanense fez com A BOLA uma viagem pela sua carreira, que começou no Farense e terminou no Leixões… em jogo contra os leões de Faro. Sem rodeios, explicou porque recusou treinar um dos grandes do nosso futebol e a paixão dos derbies do Minho entre o SC Braga e o Vitória de Guimarães. Sem esquecer um clube que não o fez desistir de ser treinador: O Elvas.
- 25 de março de 1984. Aos 33 anos, com o Farense, estreou-se como treinador principal e com uma goleada (7-1) sofrida no antigo Estádio das Antas, frente ao FC Porto, que não o fez desistir…
- As recordações são claramente positivas. Mesmo que eu queira encontrar fatores negativos, não encontro. Foi uma surpresa, porque comecei muito jovem. Foi o meu primeiro jogo na 1.ª divisão, mas não o do início da carreira de treinador, que foi com 31 anos. E sem querer, como sempre disse, fui empurrado para uma profissão para a qual não sentia grande vocação. E quando me passaram a ajudante de treinador, que era o que se chamava na altura, eu disse isso ao homem a quem eu devo tudo, o Sr. Fernando Barata.
- E que memórias ficam desse jogo de estreia com o FC Porto?
- Quando fui para o Porto tenho um episódio fantástico, que não foi nenhuma faculdade que me ensinou, foi a universidade da lei da vida, que eu considero importante e que as pessoas, teimosamente, não querem que se manifeste, porque não a consideram como tal. Na altura, para irmos de Faro ao Porto fazíamos duas viagens. Saíamos à sexta-feira de Faro, porque as estradas não eram a maravilha que são hoje, ficávamos em Lisboa e no sábado seguíamos para o Porto.
- E o que aconteceu?
- Na sexta-feira à noite o Sr. Fernando Barata telefonou-me, porque gostava muito de mim e eu devia-lhe tudo, e perguntou-me: “Ó Manel, qual é a equipa que vai pôr a jogar?” E eu, nesse dia, arranjei aquelas desculpas que o futebol me ensinou: “Amanhã ainda temos treino, pode haver alguma lesão, ainda não tenho a certeza”. Pensei que me tinha livrado dele.
- Mas não se livrou dele, pelos vistos…
- Fomos para o Porto, ficámos em Espinho, e nessa noite ele volta a ligar-me: ”Já acabaram os treinos, qual é a equipa que vai pôr a jogar?” Dei uma resposta muito dura, que hoje acho que ninguém tem coragem de a dar. “Olhe Sr. Fernando, tem duas hipóteses de saber: ou vai à bola domingo, ou compra o jornal na segunda-feira”, disse. Voltei do Porto com 7 a 1, com tanta bola, e às oito da manhã o telefone toca, para ir imediatamente a Albufeira.
- E foi?
- Primeiro, disse à minha esposa que já tinha sido despedido com aquela resposta que tinha dado. Quando cheguei ao hotel, a secretária do presidente disse-me que ele estava em reunião, e que assim que tivesse disponibilidade recebia-me. E disse-me: ”Já que está aqui no hotel, tome o pequeno-almoço.” E eu aproveitei, porque, se fosse para a rua, ao menos ia de barriga cheia.
- E o que lhe disse, depois, Fernando Barata?
- Para surpresa minha, quando entrei na sala de reuniões, o Sr. Fernando Barata levantou-se e deu-me um abraço enorme. E eu fiquei estúpido, não percebi o que é que estava a acontecer. “Então sabe porque o chamei?” E eu disse-lhe: ”Sei, dei-lhe uma resposta ingrata e perdi 7 a 1, portanto a porta da saída é a mesma porta da entrada”. E ele disse: “Não. Vou-te dar os parabéns porque está na minha frente quem eu penso que vai ser um grande treinador e um líder fantástico. Porque ninguém me fala assim, Manel. Ninguém me fala assim na minha empresa!” Fiquei aliviado!
- Já não podia fugir à carreira de treinador…
- A partir daí, a carreira de treinador continuou, porque antes eu estive 10 meses como adjunto do Sr. Mladenov com muita dificuldade em tirar a camisola de jogador e vestir a de treinador. E só passados 11 meses de ser adjunto, é que eu, pela prática constante do dia-a-dia, me apercebi que tinha condições para ser treinador.
- Como foi esse início de carreira de treinador?
- Tive a felicidade de encontrar um mestre que dificilmente eu encontraria em Portugal: o Sr. Hristo Mladenov, que tinha sido selecionador da Bulgária. Ninguém sabe o que me custou substituí-lo. Mas na verdade eu nunca o substituí, porque ele saiu do clube e continuou a ir ao meu balneário todos os dias, porque eu lhe pedia. E quando fiz o meu primeiro jogo como treinador, eu tinha ainda o anjo da guarda a proteger-me, o Sr. Mladenov. Ele só saiu porque os resultados não eram bons. Mas continuou a dar diretrizes, a dizer-me o que eu devia ou não de fazer. Foi, provavelmente, a substituição de treinador mais bonita do futebol português. E ninguém sabia disso.
- Treinou no Algarve e em 90/91, saiu da região. Começou no O Elvas...
- Os momentos mais lúcidos da minha carreira não têm a ver com os melhores clubes que treinei. Têm a ver com o O Elvas. Porque eu tinha treinado o Farense, o Olhanense, o Portimonense e o Louletano, os quatro melhores clubes da região e depois apercebi-me que não tinha mais caminho para trilhar no Algarve. Já não iria evoluir mais, tinha de sair da região. E apareceu o O Elvas. Se corresse mal, voltava para trás e acabava a carreira e ia trabalhar para a banca, e até já tinha metido os papéis nesse sentido.
- Já sabemos que não correu mal…
- Tive a felicidade, e sem desprezar qualquer uma das terras onde vivi, de ter encontrado a melhor terra, com um povo alentejano e principalmente de Elvas que me marcou e se não fosse ele, provavelmente eu teria voltado atrás e acabava com a história. As pessoas foram verdadeiramente fascinantes e eu tenho de agradecer ao O Elvas por continuar como treinador.
- Seguiram-se outros emblemas, entre os quais o Torreense e o UD Leiria, clubes que subiu à Liga. Foram dos melhores momentos?
- Em Torres Vedras tive a felicidade de chegar com a equipa em 7.º lugar depois do excelente trabalho do Eurico Gomes e tive a sorte de subir à 1.ª divisão nesse ano, que é a melhor classificação do Torreense nos últimos 50 anos, embora tivéssemos descido no final da época. Mas isso é outra história, que eu continuo a dizer que é proibida de contar, e não por culpa do Torreense.
- E Leiria como foi?
- Sim, depois seguiu-se a UD Leiria, cheguei à 5.ª jornada com dois pontos apenas e no último lugar. E nem eu próprio sonhava a carreira fabulosa que fizemos, e quando chegámos ao final estávamos na 1.ª divisão, ficámos em 2.º lugar.
- O trabalho em Leiria foi apreciado em Braga…
- Foi um percurso brilhante e tão bom que, sem que eu percebesse porquê, o SC Braga convidou-me. E para espanto meu, as coisas andaram sempre ao contrário na minha carreira. O SC Braga propõe-me um contrato em que o mínimo seriam três anos. Eu que só queria fazer por um ano. E disseram-me que seriam três, ou então nada feito.
- Acabou por assinar por três anos.
- A história desse contrato é fabulosa. A partir daí eu joguei com uma série de coisas interessantes, estudei bem a proposta e pedi determinadas condições. No primeiro ano ganhava mais, não no prémio final, porque aí meti um valor para ir às competições europeias, no segundo baixei, e no terceiro voltei a aumentar. Ficaram-se estupefactos e quiseram saber os motivos. Disse que se ficasse um ano, seria um herói, porque o SC Braga nos últimos dois anos, tinha tido seis treinadores. Dava uma média de três meses para cada um.
- E não o questionaram porque baixava ordenado no segundo ano?
- Claro. E eu disse que baixava, porque, se eu ficasse um ano, no segundo seria mais fácil para mim. E voltaram a perguntar porque é que aumentava no último ano, tendo eu respondido que nesse ano obrigava-me a mim mesmo a ir à europa. E a verdade é que fomos, ficamos em 4.º lugar.
- O seu último jogo como treinador foi a 9 de março de 2020, já no Leixões, contra o Farense, o clube onde tudo começou. Tem algum significado?
- Isto pode incomodar muita gente, particularmente as pessoas de Olhão, mas eu gosto do Farense. Eu estive nove anos lá, e durante esse tempo o Farense alimentou a minha família. E a gratidão não pode ter cor nem idade, a gratidão é gratidão. Se me disserem que o Olhanense joga com o Farense, eu quero que o Olhanense ganhe. Mas não vou desprezar o início da minha vida e o clube a quem eu devo muito.
- O que deve, então, ao Farense?
- No Farense fiz tudo. Cheguei a meter gasóleo no autocarro porque não havia dinheiro para ir fazer um jogo, comprei equipamentos para treinar, vivi os tempos difíceis do clube e aprendi a gostar do Farense, como aprendi a gostar de todos os clubes que treinei. E, curiosamente, o destino fez isso, que o meu primeiro jogo como treinador fosse no Farense, e como sinal de retirada, o último é contra o Farense.
- Fez 500 jogos na 1.ª divisão como treinador do Olhanense. Uma marca que, certamente, também não esquecerá...
- Tinha dois desejos, um consegui concretizar e o outro foi realizado de certa forma. Gostava de receber o prémio dos 500 jogos em Olhão e tive essa felicidade. Não é fácil fazer 500 jogos na 1.ª divisão, acho que não há muitos treinadores com esse número. E foi um privilégio tê-los feito na minha terra e só eu posso qualificar o sentimento de gratidão que eu tive e tenho no Olhanense.
- Ficou a faltar-lhe algo?
- Tinha o desejo de acabar a minha carreira no Farense, não foi possível, joguei contra, e de certo modo serviu de consolo.
«É mais difícil ser presidente do que ser treinador»
- O que é mais difícil? Ser presidente ou ser treinador?
- É mais difícil de ser presidente do Olhanense, do que treinador. Ninguém sabe nem tem noção do conflito que eu tenho para recuperar o clube. Acho que não estão a valorizar aquilo que a minha direção já fez em vinte e um meses. Parece que foi tudo fácil, mas, se calhar, o coração chorou muitas vezes por dentro do meu corpo. E há uma coisa que eu tenho a certeza e que eu prometi a uma pessoa só, a mim próprio: no dia em que eu sair do Olhanense o clube vai ficar muito melhor do que o encontrei. E, dizendo isto, estou a dizer que já posso sair…»
«Felicidade e privilégio» ter treinado o SC Braga e o Vitória de Guimarães
- Qual foi a reação dos adeptos do SC Braga, quando em 2006/07 foi para o Vitória de Guimarães?
- Eu compreendo que muita gente não terá gostado, mas eu era treinador profissional. Mas quero contar um pormenor: enquanto estive no SC Braga, fui duas vezes convidado pelo Vitória de Guimarães e disse-lhes que não fazia isso, que era impensável ir direto do SC Braga para o Vitória. Eu tive a felicidade, e hoje digo que é um privilégio, de ter treinado o SC Braga e ter depois ido para o Vitória. Eu sou o treinador com mais dérbis entre os dois clubes, 19 ou 20, e estive oito anos a apreciar a beleza dos adeptos vitorianos, nesses jogos. Mas não fui logo a seguir. Jornais e televisões têm-me pedido para fazer comentários quando se defrontam, mas nunca fiz nem farei, porque no dia em que eu disser, por exemplo, que um é favorito, vou perder amigos, tanto em Braga, como em Guimarães.
- Porquê?
- Porque - e isto não é elogiar-me a mim próprio, é a verdade - quem passou com o brilhantismo que eu passei por dois clubes que na prática não se podem ver e é adorado nas duas cidades, só pode ser um privilégio. As melhores classificações do SC Braga naquela altura foi o 4.º lugar e eu fiz dois.
- E no Vitória?
- No Vitória de Guimarães, no espaço de dois anos, dei-lhes uma subida de divisão e uma presença na Liga dos Campeões. Pela primeira vez ouviu-se o hino da Liga dos Campeões em Guimarães com o 3.º lugar, que é a melhor classificação de sempre do Vitória, igual à do Marinho de Peres, com a vantagem de o meu ter ido à Liga dos Campeões.