
«Foi mesmo no último dia de fechar as inscrições das equipas, disseram-me para mandar um email para a Associação de Futebol de Setúbal a dizer que não íamos ter equipas». Fundado em 2014, o Oriental Dragon teve nove épocas desportivas com uma equipa sénior. Até desaparecer do radar, em 2024/25, desta forma, conta-nos Luís Sousa, diretor do clube detido pelo empresário chinês Qi Chen, mas que em Portugal é gerido por Chen Long.
«Isso não se faz, isto não era uma equipa qualquer, esteve na Liga 3, mas foi feito em cima do joelho», acrescenta Luís Sousa. O Oriental Dragon começou do zero, nas divisões distritais, esteve na Liga 3 em 2021/22, época na qual quase eliminou o Moreirense da Taça de Portugal.
Luís Manuel treinou a equipa nesse período dourado, que recordou assim, falando com A BOLA: «Ninguém sequer pensava em chegar à Liga 3, não era o objetivo. Mas com o grupo que reunimos, chegámos a esse patamar. E sabíamos da dificuldade que era, porque não tínhamos infraestruturas.»
Sediado no Pinhal Novo, a equipa tinha de andar com a casa às costas, treinava no campo do Palmelense ou do Moitense (onde também jogava, para o Campeonato de Portugal), e na época da Liga 3 jogava no Estádio Alfredo da Silva, do Fabril, no Barreiro.
«Não conseguiram criar uma infraestrutura para aguentar o clube», explica Luís Manuel, que mesmo assim ficou «surpreendido com a queda, sobretudo para a distrital». «Nesse ano em que desce, tinha plantel para ser candidato à subida de divisão, porque tinha uma equipa forte. A queda para a distrital foi dolorosa para o clube e para mim, que passei lá alguns anos.»
«Foi-me vendida uma coisa e depois aconteceu outra»
Entre 2020/21 e 2023/24, o Oriental Dragon nunca esteve duas épocas seguidas no mesmo escalão, e a queda até à 1.ª Divisão distrital ocorreu um ano após a equipa disputar o último jogo na Liga 3. David Kong representou o Dragon nesse jogo e admite «que as duas descidas de divisão tornaram o projeto impossível».
«Já sabia que as condições não eram as melhores, treinávamos num relvado sintético e jogávamos num de relva natural, isso faz toda a diferença», explica.
Hugo Falcão fez parte deste trajeto, treinando a equipa em quatro jogos na época da descida à divisão distrital. «Passado uma semana já estava arrependido. Foi-me vendida uma coisa e depois aconteceu outra e por isso é que eu me fui embora. Era um clube com poucas condições, não tinham campo. Os próprios jogadores já estavam cansados do projeto», recorda.
A abordagem ao treinador foi feita por Chen Long, com a equipa ainda na Liga 3: «Na altura eu estava no Sintrense e não aceitei, mas depois voltou a fazê-la já no Campeonato de Portugal». Falcão foi substituído por Toni Pereira, que foi contactado por A BOLA, mas não quis prestar declarações.
Projeto chinês e um «acordo de cavalheiros»
O Oriental Dragon sempre teve como objetivo potenciar jogadores chineses, para depois os vender para a China. Luís Manuel, o treinador que mais tempo passou no clube (50 jogos), explica como é que tal era posto em prática no campo: «Quando cheguei havia... não era uma imposição, uma conversa de que tinha de pôr alguns jogadores chineses a jogar.»
«Isso era importante para eles. Essa exigência não era contratual, no papel, havia um acordo de cavalheiros. Da minha parte, cumpri essa situação», conta o técnico, que não terá tido a mesma experiência de Hugo Falcão.
«Havia uma obrigação de usar um ou dois jogadores, desde que não afetassem o rendimento da equipa», conta: «Mas a verdade é que depois esses jogadores, em jogo, cometeram erros muito graves. Eu cheguei ali a uma altura que pensei se aquilo já era premeditado. Parecia de propósito. Durante a semana trabalhavam de uma forma e depois no jogo havia muitas falhas».
O jovem técnico, atualmente na formação dos sauditas do Neom, diz que «houve jogadores que beneficiaram do projeto, como Liu Yang que é internacional chinês», mas que «com o passar do tempo, o projeto foi perdendo credibilidade e valor».
Uma obra principesca
Quem nos fez a primeira garantia que o Oriental Dragon não desaparecera foi Francisco Cardoso, presidente da AF Setúbal: «O clube está inscrito na associação. A informação que tenho é que vão construir um complexo novo». Nem Luís Manuel, amigo de Chen Long, estava a par: «Tenho falado e almoçado com o Sr. Chen algumas vezes e não sabia dessas obras.»
Luís Sousa, diretor do Oriental Dragon, fala-nos de uma obra de grande dimensão: «O arquiteto mostrou-me o projeto. O objetivo é ter três campos com relva natural, um sintético, um edifício com 25 quartos, cinco suítes, restaurante e ginásio.»
A construção será no Pinhal Novo, na zona da Palhota, e em Portugal, só se poderá equiparar às academias de Benfica e Sporting. «O que está no projeto é uma obra desse género», adianta, tendo em conta que a obra ainda não arrancou.
«Isto atrasou-se um bocadinho. Acho que aquele terreno era agrícola, tiveram de o reverter. Mas o município facilitou isso tudo, tem ajudado e vê isto com bons olhos», acrescenta Luís Sousa.
Ainda não há previsões para o início da construção, mas quando esta estiver concluída, a ideia, segundo o diretor do clube, é que o Oriental Dragon volte a competir: «Vamos começar do zero, na 2.ª divisão distrital». No entanto, o centro de estágios também terá o objetivo de albergar equipas chinesas para estágios em Portugal.
«Estavam a pensar trazerem trabalhadores da China para construir o Centro de Estágio, por ser mais rápido. Até deram o exemplo do hospital que fizeram no Covid», acrescenta Luís Sousa.
Assim, o futuro do Oriental Dragon escreve-se, para já, em poucas linhas. A Qi Chen cabe a decisão de voltar a competir, mas ao foco está numa obra que não começou. Deste modo, uma garantia final é-nos dada por Luís Manuel.
«Se o Oriental Dragon voltar com infraestruturas, não tenho dúvidas de que se pode projetar para outros patamares, porque é um clube com muita ambição, dinheiro e que não deixa faltar nada aos atletas.»