
Diz a sabedoria popular que se escavássemos um túnel desde Portugal até ao outro lado do Mundo iríamos dar com a costa das Ilhas Chatham, na Nova Zelândia.
Esse exercício é puramente teórico, já que tamanha perfuração é objetivamente impossível (olhem para o outro lado agora, terraplanistas!), mas ainda assim útil para encontrar o antípoda - ou ponto mais distante no globo - de qualquer local. Corajosos são os que aí escolhem viver, no local de máxima distância de casa.
Sabemos que há uma forte comunidade de emigrantes portugueses nesse país, mas o inverso, embora raro, também existe. Achámos esse um bom ponto de partida para uma questão à base de dados do zerozero... Afinal, quantos futebolistas neozelandezes estão atualmente em Portugal?
Três. Há três kiwis a atuar no nosso país. Para tentar perceber as diferenças na vida, cultura e futebol, bem como o longo caminho que os trouxe até aqui, o nosso jornal falou com dois deles: um internacional AA, recém-apurado para o próximo Mundial, e um jovem que luta para chegar ao profissional...
É figura na Oceânia e joga em... Leiria
Sarpreet Singh atende o telefone depois de uma série de dias que foram tão duros no corpo como bons para o espírito.
O médio da UD Leiria viajou 30 horas até à Nova Zelândia, onde marcou e assistiu por duas vezes na vitória frente às Fiji (7-0) e três dias depois, na final da qualificação da OFC, voltou a ser titular no jogo que garantiu o apuramento para o Mundial (0-3 à Nova Caledónia). Depois disso regressou a Portugal, enfrentando novamente as 30 horas de viagem e 13 de diferença horária.«Foi duro, mas é uma conquista muito boa. Tive muitos altos e baixos na minha carreira, por isso chegar ao Campeonato do Mundo é algo fantástico. Sabíamos que éramos os favoritos neste novo caminho, mas não há jogos fáceis no futebol e por isso tivemos de ser profissionais. Queremos ir além do que fizemos em 2010, construir uma equipa e estilo de jogo que crie problemas e aos adversários e nos permita sair dos grupos», começou por dizer, à conversa com o zerozero.
«Tenho desempenhado um papel significativo na seleção... Lá tenho uma boa estrutura e posso jogar com liberdade numa posição que me favorece. Quando isso acontece é quando eu jogo o meu melhor futebol e é por isso que esta época tem corrido bem.»
A expressão «altos e baixos» que Singh usa não chega nem perto de descrever um percurso que foi desde o estatuto de promessa na A-League (Liga Australiana onde jogam também os neozelandeses do Wellington Phoenix, onde foi formado), até a uma titularidade pelo Bayern München de Flick num ano de tríplice coroa. A quebra que se seguiu, causada em parte por lesões, pavimentou a estrada que o levou até ao futebol português.
«A minha última época não foi com muitos minutos e por isso as opções ficam limitadas. Tive alguns convites lá na Alemanha, mas achei que era altura para algo diferente. Queria ir para um país onde se jogasse mais futebol, porque as divisões inferiores na Alemanha são muito físicas e à base da transição», diz-nos, referindo-se à pouca utilização no Hansa Rostock.«Achei que era importante tentar outra coisa e quando Portugal surgiu eu só quis uma temporada a jogar com consistência. Tenho gostado até agora. É diferente e obviamente há prós e contras em todas as ligas, mas tenho apreciado e tenho jogado muitos jogos. Tenciono continuar a jogar e a ajudar a equipa, de preferência para subirmos de divisão. Não estamos assim tão longe e se for esse o caso então seria muito bom dar por mim a jogar na primeira divisão portuguesa...»

Em Santo André de Vagos, a sonhar com o profissional
O percurso que levou Sham Chetty até Portugal foi completamente diferente. Não envolveu o topo do futebol na Oceânia e muito menos a partilha de balneário com alguns dos melhores jogadores do mundo. Seria ele o antípoda do já referido compatriota no que toca ao globo do futebol, se esse não fosse um conceito acabado de inventar por nós.
Na hora de escolher um destino para dar continuidade à carreira, depois de ver os objetivos estagnar no sistema neozelandês, Chetty foi inspirado por Cristiano Ronaldo e pelo vasto leque de talentos produzidos aqui à beira do Atlântico, mas acima de tudo foi por recomendação de um português.

«De início foi difícil estar longe de casa, mas eu sei que a Europa é muito grande a nível futebolístico e que jogar em Portugal também seria uma boa referência para ter no CV. Levo as coisas uma temporada de cada vez e vou para onde estiverem as oportunidades!»
Chegou a Portugal na temporada passada, pela porta do Marinhense. Representou a equipa B (só jogou na segunda metade da época devido a problemas com a inscrição), mas ainda teve a oportunidade de treinar com a equipa principal, que disputa o CP. Em 2024/25 mudou-se para o ADCF Santo André, onde tem jogado a 2ª distrital da AF Aveiro.
«Quando cheguei aqui achei que sabia muito sobre futebol, mas agora vejo tudo de uma perspetiva diferente. A nível tático entendo tudo muito melhor. O jogo também anda muito rápido e estás rodeado de talento, por isso podes melhorar de forma contínua. De momento estou a perseguir o sonho do futebol. O meu objetivo nesta altura é jogar muitos jogos, ser completamente ativo e jogar 90 minutos todas as semanas, porque sinto que quanto mais jogo melhor fico», diz-nos o lateral de 24 anos.Entre a «falta de oportunidades» e a «direção certa»
Apesar de terem as mesmas origens e de ambos estarem - literalmente - no outro lado do mundo a jogar futebol, há muito que separa estes dois jogadores no que toca à sua visão sobre dois temas aqui abordados: a distância de casa e o estado do futebol na Nova Zelândia.

«Às vezes quero ligar à minha família, mas tenho de pensar que estão 13 horas à minha frente, quase um dia. É difícil, mas acredito que vai valer a pena. Tudo isto é muito diferente da Nova Zelândia, mas as pessoas são calorosas e recebem-me sempre bem. A língua é diferente, estou ainda a aprender, mas a equipa faz-me sentir que isto é uma segunda casa», continua, antes de lamentar a falta de caminhos para o sucesso em casa.
«Depois de experienciares o futebol aqui... é tudo tão diferente. Há tantas equipas e tanto talento, tanta exposição. Também é um contexto com mais diversidade de nacionalidades. Lá não há tantas oportunidades porque só há duas equipas profissionais, que competem na A-League. Seria melhor termos mais equipas profissionais, isso daria mais exposição ao futebol neozelandês e uma melhor progressão», diz o lateral da ADCF Santo André.

«O futebol está a ir na direção certa. O râguebi pode ser o maior desporto, mas há mais miúdos a jogar futebol do que râguebi e isso também mostra o caminho que estamos a fazer. Há algumas desvantagens, na falta de outras equipas ou caminhos para o profissionalismo, mas se continuarmos a trabalhar bem podemos ajudar o desporto a crescer. O que eu puder fazer para ajudar nisso, eu farei.»