A revelação chegou esta quarta-feira e o mundo tremeu. Os mercados sobressaltaram-se, o dólar desvalorizou e os parceiros económicos levaram as mãos à cabeça. Parte da promessa de “tornar a América grande outra vez”, Donald Trump anunciou uma nova tabela de tarifas a aplicar sobre as importações de todo o mundo – de que nem as terras onde só moram pinguins escapam.

O presidente norte-americano diz que vai cobrar uma tarifa-base de 10% a todos os países, a que se acrescentam taxas mais elevadas para alguns em particular – e, sim, claro que a União Europeia, onde Portugal se insere, vai ser taxada e bem taxada.

A medida é controversa. O Nobel da Economia Paul Krugman afirma que a “fórmula” para calcular as tarifas está “cheia de erros”. Muitos outros economistas alertam que a ideia pode ter bastantes mais efeitos negativos do que positivos, podendo mesmo gerar uma guerra comercial global - que aumentará os preços para os norte-americanos e levará os Estados Unidos a uma possível recessão.

Eis as principais perguntas e respostas sobre as (malfadadas) tarifas de Trump.

Como funcionam as tarifas?

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As tarifas são taxas adicionais cobradas sobre os bens importados de outros países. São uma percentagem do preço do produto que lhe é acrescentada.

São as empresas que vendem o produto ao país que têm de pagar a tarifa ao governo – podendo escolher deixar a despesa do lado do consumidor, refletindo a taxa no valor final e aumentando o preço final do produto.

Porquê aplicar tarifas?

O princípio é fomentar o consumo de produtos internos, em vez de produtos feitos no estrangeiro. A lógica de Trump baseia-se na ideia de que se os produtos que vierem de fora forem mais caros, a população vai comprar mais produtos norte-americanos e dinamizar a economia do país.

E, claro, há a ideia básica de que, se cobrar mais taxas aos outros, recebe mais dinheiro – que, com Donald Trump, adquire alguns contornos de “vingança”. O presidente norte-americano acredita que os outros países se têm aproveitado dos EUA e quer reduzir a distância entre o valor dos bens que o país importa e dos que exporta.

Que tarifas são estas agora anunciadas?

De acordo com o anúncio feito por Donald Trump, uma taxa “de base” de 10% vai ser aplicada a todas as importações que chegarem aos EUA. A medida entra em vigor este sábado, dia 5 de abril.

No entanto, grande parte dos países do mundo vai ser alvo de tarifas muito maiores – que chegam a ultrapassar os 50%. Essas entram em vigor na próxima quarta-feira, dia 9 de abril.

Quais são os países mais e menos afetados?

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Há uma série de países a quem apenas será aplicada a tal tarifa mínima de 10%, como o Reino Unido, o Brasil, a Austrália e a Arábia Saudita.

o mais afetado será, sem dúvida, a China – o maior rival económico global dos EUA. Aos produtos chineses será agora aplicada uma tarifa de 54% (com uma nova tarifa de 34% a adicionar à de 20% que já era aplicada).

Também o Camboja e o Vietname – países onde está instalada uma porção significativa das fábricas que produzem produtos que todos consumimos - são altamente atingidos. Terão tarifas de 49% e 46%, respetivamente.

Outros países com taxas assinalavelmente altas são São Pedro e Miquelão - que é território francês - e Lesoto (50%), Laos (48%), Madagáscar (47%), Myanmar (45%), Sri Lanka (44%), Ilhas Malvinas (42%) e Síria (41%).

Como é Portugal atingido?

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Portugal é membro da União Europeia e, como tal, ser-lhe-á aplicada a tarifa que estará em vigor para todos os Estados-membros.

E, apesar de não estar entre os piores, a União Europeia – que é parceira histórica dos EUA – sai também bastante prejudicada nesta equação. Faz parte da lista de países que, a partir da próxima quarta-feira, verá aplicada uma tarifa de 20% sobre todos os produtos que fizer entrar em território norte-americano.

Portugal, em particular, tem vários setores altamente dependentes do mercado norte-americano – um dos seus principais destinos de exportações. É o caso das indústrias têxtil e automóvel - onde já se teme o fecho de empresas e despedimentos -, mas, sobretudo, da indústria dos vinhos (que, em muitos casos, tem os EUA como primeiro comprador, a nível mundial).

Como estão os países a responder?

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A decisão de Trump foi amplamente criticada pelos mais variados líderes mundiais, do Leste ao Oeste.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, avisou que a medida terá “consequências terríveis” em todo o mundo e prometeu que a Europa apresentará um pacote para responder às tarifas já anunciadas sobre o aço e o alumínio.

Também a China ameaçou com “contramedidas firmes” em retaliação.

Também pela Ásia, o Japão considerou a decisão “extremamente lamentável”, sublinhando que pode consistir numa violação dos acordos comerciais entre os dois países, enquanto a Coreia do Sul declarou que a “guerra comercial global acabou de se tornar uma realidade”.

Entre os países que partilham língua e laços com os EUA, a Austrália respondeu que “este não é o ato de um amigo” e o Canadá alertou que será necessário responder “com força”.

Em Portugal, o Governo anunciou que o ministro e o secretário de Estado da Economia vão iniciar, na próxima semana, uma "ronda de reuniões" com 16 associações empresariais. Tudo para "avaliar o impacto" que as tarifas podem ter nas empresas portuguesas e na economia nacional e estudar uma estratégia de resposta.

E para os norte-americanos? Não vai ser pior?

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A maioria dos economistas afirma que sim. Aquilo que se antevê é que as tarifas levem ao aumento dos preços nos EUA, uma vez que as taxas deverão ser refletidas no valor dos produtos, com as empresas a imputarem os novos custos aos consumidores.

Os automóveis são um dos pontos em maior foco, mas o aumento dos preços vai atingir outros produtos de muito menor dimensão consumidos diariamente, desde fruta a bebidas alcoólicas.

Outro cenário que pode acontecer é as empresas decidirem importar menos produtos e, havendo escassez no mercado, naturalmente, também por essa via os preços subirão.