
Na residência artística realizada no Bairro do Cabeço, na vila do Tortosendo, mulheres ciganas entre os nove e os 80 anos juntaram-se às artistas Marian van der Zwaan, dos Países Baixos, e Cybelle Mendes, do Brasil, numa interação que fez cair barreiras, perceber diferentes perspetivas e tradições, derrubar preconceitos e desmistificar ideias.
No projeto promovido pelo New Hand Lab, onde a peça final fica exposta, Marian achou, quando chegou ao bairro, que afinal não seria possível avançar, porque constatou que, apesar de o casamento jovem continuar a ser uma realidade, "praticamente já não há casamentos, porque eles fogem" quando querem ficar juntos e raramente há festa, ou vestido.
O que outrora era música, azáfama e mesa farta, hoje é sussurro entre dois jovens que escolhem normalmente o seu compasso. Desaparecem e passam a ficar juntos. Nem sempre o casamento é formalizado.
À conversa numa das ruas onde sobra tempo e sonhos, mas faltam oportunidades, Marian encontrou "Princesa", cigana que lhe disse que adorava ter casado e ter tido um vestido de noiva.
A artista neerlandesa, a viver em Portugal, conhecida por utilizar nos seus trabalhos uma corda vermelha, fio condutor da inclusão social, sabe que é necessário muito tempo para ganhar a confiança das comunidades, mas a cooperativa de intervenção social Coolabora, que trabalha no bairro diariamente, abriu-lhe essa porta e as sessões sucederam-se, num espaço de partilha que enriqueceu ambas as partes.
Ao longo dos dias foram escovados e desfeitos 1,5 quilómetros da corda de algodão e sintético, era utilizada cola e afixada num modelo, num processo coletivo que desfazia a trama e construía uma relação em que os julgamentos ficaram à porta.
Marian e Cybelle, que documentou a residência em fotos e num vídeo-poesia, com referências à cultura cigana, quiseram refletir nas obras as várias dimensões que encontraram, de um grupo que não pensa todo da mesma forma.
Por um lado, já não casam obrigadas e só algumas mulheres são prometidas, mas casar tarde é malvisto, existe pressão para casar com alguém cigano, as redes sociais passaram a ser um meio em que os jovens se conhecem e as mulheres podem "dar a cabaça", rejeitar o rapaz.
Por outro, há quem manifeste a ambição de as filhas prosseguirem os estudos, quem não se importe que casem com alguém não cigano. Sobretudo quando falam abertamente em círculos mais fechados, as jovens mostram-se mais emancipadas. Cada cabeça tem livre pensamento, que por vezes esbarra em pressões externas.
"Senti que elas estão presas dentro da própria cultura, estão no meio dos dois mundos. Por um lado, querem, por outro lado, não podem, mas também não querem", analisa Marian.
Decidiu transportar esse 'dégradé' que notou nas conversas para a peça. O vestido de seis metros era para ser fechado, mas acabou por fazê-lo apenas na parte de cima e o resto são cordas puxadas, metáfora que encontrou para a realidade com que se deparou, onde conheceu jovens que pretende continuar a acompanhar.
"Em cima é como se o vestido estivesse a flutuar, quisesse voar, mas em baixo está agarrado às tradições", explica Marian van der Zwaan.
Segundo a criadora, "elas querem mais vida do que apenas o que lhes é proporcionado no bairro". Percebeu que "têm outras capacidades e sonhos".
Ao longo das sessões criaram-se laços, cumplicidades, riu-se, fizeram-se confidências, projetaram-se formas alternativas de viver as relações.
Marta nunca tinha visto o homem com quem vive há 31 anos. Sem pormenorizar, contou que, quando deu conta, estava casada, aos 17 anos. "Gostaria de vestir de noiva, mas nunca tive esse privilégio".
Para as filhas imaginava algo diferente, que ficassem até mais tarde em casa dos pais, mas casaram mais novas, aos 15 e 16 anos. Não foram casamentos arranjados, garantiu. Quiseram e tiveram permissão. Uma continuou a estudar, a outra foi para a terra dos sogros e deixou a escola.
Para a neta, espera "que ela estude, que seja o que ela quiser, que escolha um cigano ou não cigano, tanto faz", embora saiba que essa opinião não é unânime, mas sabe o que significa não poder cumprir-se e as portas que o preconceito fecha. Viu-o todas as vezes que procurou emprego e "nem sequer uma limpeza para fazer". Nunca a chamaram.
Cybelle Mendes encontrou uma comunidade com "apego pela família, unida num mundo hostil", com uma "clausura autoimposta socialmente", numa espécie de "aprisionamento de si", como acontece com outras mulheres comuns, "a grande diferença aqui é económica".
Mara Vicente, de 20 anos, casou aos 16 com o marido, que mora no mesmo bairro. "Antes, as ciganas tinham casamentos arranjados, agora, a gente escolhe. Chega a uma idade, toda a menina cigana quer casar", frisa. No seu caso, quis deixar a escola e explicou que, para si, "era importante seguir a tradição".
Antónia Silvestre, técnica da Coolabora, esclarece que tem que ver com a honra, a importância dada à virgindade, com a pressão social de um grupo que vive muito próximo e a perceção de que as tradições são mais fortes do que para os restantes cidadãos é a lei.
A instituição trabalha para que perspetivem um futuro que não passe necessariamente pelo casamento precoce e pela vida doméstica, "mas também se percebe que nascem e crescem com estes modelos de referência e têm dificuldade em ver-se numa coisa completamente diferente", explana.
"Elas não têm oportunidade de ter relações de namoro e partem logo para o casamento, porque é a única maneira de estarem juntos", justifica Rosa Carreira, da Coolabora.
A técnica sublinhou que a escola continua a ser um local onde os ciganos se sentem mais excluídos do que as restantes crianças e acabam por ser alvo "das tradições do seu povo, mas principalmente da sociedade em que vivem, que estigmatiza de forma negativa".
"Essa falta de sentimento de integração dos ciganos é muitas vezes uma reação à pressão das que os etiquetam. Ao dizerem-lhes o que é que eles são, acabam por não lhes permitir também serem outra coisa", reforça Rosa Carreira.
Nos registos que fez, Cybelle Mendes percebeu que muitas participantes "têm a autoproteção de não se expor" e teve o cuidado de não tirar fotos do rosto ou aproximar-se demasiado de quem não se sente confortável com isso. Considera-o "uma desconfiança fundamentada do outro".
Mas notou que muitas "têm sonhos e pensam ser isto e aquilo". "Às vezes, basta um elogio, um apoio, e a pessoa ganha força, começa a acreditar e a ter mais confiança", acrescenta a artista.
Marian diz que partilhou aspetos da sua vida conjugal, que surpreenderam.
Para Marta, estas foram também sessões de desabafo e diz que a artista plástica, a quem insiste em chamar doutora, foi também "uma psicóloga" e que existiu uma troca mútua de conhecimento.
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