Os tempos que vivemos na Europa e nos EUA têm semelhanças preocupantes com o período anterior à II Guerra Mundial. Nos últimos meses, multiplicam-se cimeiras ou conselhos formais ou informais de líderes europeus a reagir à ameaça da Rússia de Vladimir Putin, enquanto fica evidente o desinteresse da administração norte-americana pela segurança e defesa na Europa, em especial na Ucrânia, e Donald Trump opta por impor tarifas comerciais aos seus aliados ocidentais, numa lógica que vai além de tradicionais políticas protecionistas dos EUA — e terá efeito boomerang (mas isso será tema de outra reflexão).
Temos ouvido bem intencionadas proclamações de paz, ao estilo Chamberlain (Munique, 1938), enquanto assistimos atónitos a uma espécie de repetição do pacto Molotov-Ribbentrof (1939), com negociações surreais entre Moscovo e Washington, sem a participação de Kiev ou Bruxelas, para dividir riquezas e territórios da Ucrânia.
Entretanto, a leste, um povo martirizado tem servido de escudo a uma Europa anestesiada e ainda num ambiente festivo que se assemelha aos anos loucos da década de 30 do século XX. Mesmo que seja importante mantermos normalidade e confiança na vida dos cidadãos, há motivos concretos para crescente preocupação na Europa e a prova disso é a recente recomendação da Comissão Europeia aos cidadãos para estarem prevenidos com um kit de sobrevivência para 72 horas.
Vale a pena rever o documentário Churchill at War ou o filme Darkest Hour ou reler livros e biografias relativos à II Guerra Mundial e aos anos de ascensão de Hitler e do brutal investimento militar nazi que resultou no domínio de quase toda a Europa entre 1939 e 1945. Há impressionantes semelhanças com a atualidade…
O documentário e o filme sobre a impressionante figura histórica de Churchill permitem a seguinte reflexão sobre o actual contexto vivido neste início de primavera de 2025: o Reino Unido já não pertence à União Europeia, por (absurda) decisão própria, mas a sua capacidade militar e a solida defesa de valores de paz e democracia são garantias de apoio à UE e Ucrânia, perante a ameaça de Putin.
Recorde-se que foram os britânicos que resistiram heroicamente e nunca capitularam perante a Alemanha nazi até que os EUA, finalmente, entraram na guerra, mas só quando foram atacados pelos japoneses no Pacífico.
Na hora da verdade, os soldados norte-americanos (e seus aliados, entre os quais canadianos…) desembarcaram na Normandia, em 1944, e ajudaram — assim como as tropas soviéticas de Stalin, a leste — a libertar a Europa da loucura criminosa de Hitler. Hoje, a Europa contará ou não com os EUA, em caso de avanço russo?
Hoje, na Europa, há promessas de maior investimento em armamento e uma atitude mais enérgica dos dirigentes das instituições europeias e dos Estados-membros da UE, sobretudo desde que se percebeu que Trump está mais preocupado com a China e não esconde alguma admiração por Putin, enquanto tentou humilhar Zelensky na sala oval da Casa Branca. Mais recentemente, Bruxelas apresentou um pacote de investimento sem precedentes na defesa e alertou a população da UE para a necessidade de estar preparada para qualquer emergência, mesmo que a oportunidade ou estratégia de comunicação seja discutível.
Entre muitas fotos de família em Paris, Londres ou Bruxelas, qual será a real capacidade de resposta europeia, se Putin avançar em força sobre a Ucrânia com Trump a olhar para o lado?
E, se isso vier acontecer sob a capa de um (falso) cessar-fogo, que países ou regiões seriam o próximo alvo? Países Bálticos, Polónia ou Finlândia têm uma perceção do perigo real bem diferente de Portugal ou de Espanha, noutra ponta do continente europeu, mas a ameaça russa deveria ser levada a sério.
Quando este ano se celebrar o 80.º aniversário do fim da II Guerra Mundial, que discurso fará o autocentrado empresário do setor imobiliário que ocupa a Casa Branca, tão longe da determinação libertadora de Roosevelt?
E, não menos importante, que estadistas europeus teremos hoje com a coragem e o carácter de Winston Churchill?
Jornalista