
Como avaliam, atualmente, o problema da infeção por HPV?
A infeção pelo papiloma vírus humano (HPV) constitui um problema de saúde pública importante, com elevado impacto na morbimortalidade da população feminina. Constitui o principal fator de risco para o cancro do colo do útero, a segunda maior causa de morte em mulheres jovens, em Portugal. Segundo dados disponibilizados pela Liga Portuguesa Contra o Cancro, estima-se que 75 a 80% das mulheres e homens sexualmente ativos sejam afetados por HPV. A nível nacional, 20% das mulheres com idades compreendidas entre os 18 e 64 anos estão infetadas pelo HPV. Desde 2008, a vacina contra HPV foi incluída no Plano Nacional de Vacinação (PNV) e, de momento, a nonavalente está a ser administrada em ambos os géneros aos 10 anos de idade. Portanto, com o investimento na prevenção primária pretende-se alcançar a imunidade de grupo, eventualmente, prevenindo a infeção que causa a maior parte dos casos de cancro do colo do útero. Ainda, com o alargamento da população incluída no rastreio populacional pretende-se identificar o maior número de casos de infeção para uma intervenção precoce.
A vacinação está a ter impacto. Na vossa opinião, o médico de família deveria propor a vacina também ao parceiro (a)?
Sim. Estamos perante uma evidência crescente a favor da vacinação, tanto na prevenção de condilomas, como na de lesões pré-invasivas e invasivas associadas à infeção por HPV em ambos os sexos. Uma vez que já existe eficácia demonstrada na redução destas lesões, a sua administração está indicada em mulheres e homens – nestes até aos 26 anos. Neste sentido, o papel do médico de família é imprescindível no aconselhamento da vacinação nestes casos, fomentando a aproximação de uma imunidade de grupo para esta infeção.
“A microbiota vaginal saudável tem um papel protetor contra as infeções por HPV, contra a aquisição de HPV de alto risco oncogénico, contra a persistência do vírus e evolução para lesões cervicais pré-malignas”
Relativamente às mulheres que já têm a infeção ou que já tiveram, também se deve apostar na vacinação?
Sim. Apesar de as vacinas não terem eficácia como tratamento, demonstraram eficácia na prevenção da reativação de infeção pelos genótipos presentes na vacina. De facto, os ensaios clínicos demonstram que mulheres com idade superior a 26 anos beneficiam com a vacinação profilática, pois mantêm um risco significativo de novas infeções, reativações ou reinfeções por HPV, numa faixa etária em que o risco de persistência é superior. Estas vacinas mantêm uma eficácia elevada e com bom perfil de segurança nesta faixa etária, por isso, devem ser recomendadas.
Atualmente, fala-se na importância da microbiota. Qual a sua relevância em relação à prevenção da (re) infeção por HPV?
A microbiota vaginal saudável tem um papel protetor contra as infeções por HPV, contra a aquisição de HPV de alto risco oncogénico, contra a persistência do vírus e evolução para lesões cervicais pré-malignas. Existem inúmeros estudos que indicam uma maior predisposição à infeção por HPV em mulheres com bactérias relacionadas com vaginose bacteriana. Os estudos têm metodologias muito heterogéneas e ainda não é conhecido o mecanismo pelo qual a disbiose vaginal leva algumas mulheres a desenvolverem uma persistência da infeção por HPV. Tendo isto em consideração, pressupõe-se um papel relevante, embora sejam necessários mais estudos para apurar o mecanismo e a relação causa-efeito provável.
MJG
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